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quarta-feira, 17 de novembro de 2010

arrasto


















a imperfeição do homem
se alastra pelos tempos
e se agarra ao solo
feito semente nova
que quer germinar

seria o desejo de ser semi-deus
ou a onda ancestral do medo?

um ímpeto viril permanece
entre suas proles
e arrasta o mito inconstante
por eras e eras

em certa hora não correm mais
apóiam-se em bengalas de aço
caminham devagar na ânsia
de ouvir ecos e o som do mar.




performer: Fabiano Barros

na rede


























como peixe de boca aberta
com respiração inquieta
preso no emaranhado
se seus braços apertados
de suas cordas e linhas
sem fim
perco-me calado
sem ar
ai de mim!


performer: Fabiano Barros

o guardião da aurora




























ele está ali
onde não emenda seu descanso
e não há saída, trilha
nem sequer caminho

ele está ali
onde aquelas cores encontram
horizonte e olhos
nem há nada além de silêncio

vejo o homem opúsculo
o que é folha branca
o que não tem pena de si

vejo o guardião da aurora
o que se livra de tudo
o que não chora nem ri.



performer: Fabiano Barros

souvenir



ontem, passeando nas praças de San Telmo, deparei-me com muitas versões de Frida: réplicas de suas pinturas impressas em papel barato, suas sobrancelhas e olhos pixados num beco debaixo da ponte e bonequinhas de todos os tamanhos e valores disponíveis nas bancas de camelôs, tudo que Frida Kahlo não queria ser.

ferino


























passeia livre entre
os lençóis de minha face
que sangra
golpeia o querer
feito mágoa que se aloja
de fato
nas entranhas do cancro

é cru e não-lavável
e esboça sorrisos
a cada retrair meu
ruim feito navalha
que rasga e fere
sem pena da castração
que impõe

estágio carmim




















tenta sorrir
e como um objeto
arde agora

pupilas rasgadas de dor
manchas e manchas
sobre o veludo

findo o combate
enfim alcança
o estágio carmim.



performer: Fabiano Barros

Silêncio, por favor!






















pouca fala
improviso pouco
se fala
o mundo se cala
constrói e condensa
e atualiza
significados vertidos
na essência incompreendida

dramatiza com a carne rala
com humor arcaico
quase medieval
rude, renascentista
parnasiano de dilemas
quase teimas
este é o homem do qual
todos descendemos.




performer: Fabiano Barros

Trópico de capricórnio




















qual ficção celeste
essa linha imaginária
transfigura mapas
e ameniza calores

se não fosse o paralelo sul
onde meu equador abranda
seria liberta a febre tropical
que consome certos limites

hei de controlar meus solstícios
e essa desistência opaca
quase uma declinação ao frágil

hei de controlar as dores
e essa permanência estática
esse meridional em mim




performer: Fabiano Barros

cimo



















sou querer empírico
responsabilizada de ser
resvalando-me na inércia
de não ser

tento abrir as portas
que me afastam de mim
mesmo condenada
à liberdade insólita
do não poder
cimo

épica e lenta descoberta
corrompida pelo ego
qual Sísifo interno-me
eterna jornada
no subir e descer
da pedra.



performer:Fabiano Barros

estou farta de antropofagias






















e de engolir o que não posso
digerir
são tantas nervuras e ditaduras
que mesmo que me engolisse
mil vezes não alcançaria
o centro do prato

estou farta de antropofagias
que me fazem comer pele
a carne e os olhos
e me fazem esquecer das vísceras
da bile
do coração
e dos intestinos

quero a pirofagia
deglutir o que é brasa
dilacera e dói no centro
e não deixa os olhos impunes

quero incendiar o passado
não por esquecimento
mas por força do presente
que é o que tenho nas mãos
e queima.

sou todo vínculo



























nas letras vago
nelas me revelo
querendo me vingar.

negando o que vejo
minto pra vida
e tento a violar
como se fosse viril.

mas sou o vazio,
sem virtudes,
sem visão,
sem visgo.

sou o vácuo,
sou o veio,
o vergão,
sou o verbo.




performer: Fabiano Barros

rei menino



























seus olhos são bagos inertes
que encolhidos buscam o fundo
esbugalham-se para germinar
rasgam as retinas e brotam
fazem-se raiz e caule
flores e frutos

seus olhos são sementes tristes
que mal se aquecem sob a terra
esse corpo franzino e fala fraca
causam-me comoção e quase reclamam
o trono que já era seu
antes mesmo que nascesse.























domingo, 14 de novembro de 2010

aurora

























parece-me o raiar dos deuses
estadia entre o negro
e o glorioso amanhecer

tens o riso adorável
fúria inominável
e coração em desapego

tudo é humilde diante
desses olhos floridos
e dessa boca penitente

tudo me é suportável
se tua voz e língua
se fendam em meus lábios.





performer: Fabiano Barros

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

pássaro no chão




















poderia ser livre
nenhuma asa quebrada
preso por vontade própria
fui mais um cativo

foi só uma noite
talvez um dia


mantive-me apertado
enquanto pude
entre seus abraços
pés na terra
retinas nas nuvens

tudo tão lindo
tanto a dizer
e conjugar a liberdade:
eu livro você
e assim me liberta





performer: Fabiano Barros

domingo, 7 de novembro de 2010

tatuagem incolor


















se me quer
deseja-me em segredo
não há inveja
em cantos escuros
nem em frestas
silenciosas e iluminadas

traz o amor estampado
em sua testa
sob o dedo médio
onde só eu possa ver

se me quer
que seja logo
para que esse
bem querer
não nos perca.




performer: Fabrício Barros

sábado, 6 de novembro de 2010

o enforcado



























o homem sozinho
abarca todos males
e condenado ao mundo
se dobra ao impacto

como se fosse
apenas seu peso
e a pressão do nó

como se já não
importasse a corda
ou o medo

o músculo desgastado
clama o resgate
e as forcas
só ditam cabeças.




performer: Fabiano Barros

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

borderline,



























borderline, borderline
prognóstico ou diagnóstico
insulta-me seu silêncio

e tento me convencer que uma hora passa
mas esse tempo esgarça e me importuna
que há de me dizer a posteridade

que as horas foram infiéis comigo
e que me levaram tudo o que quis?
clausuras temporais são minha punição



performer: Fabrício Barros

vestígios




















cheio de limitações
o desfrute da demência insana
é amplidão interna
e o compartilhar sem reservas
não existe

dá um desconto
pelo amor de deus!
nem se a estocada é forte
não se sente completamente
a bainha sempre me sobra

ficou algo para fora
migalhas de pão da santa ceia
eu, cristo com crista vermelha
não despojaria de algo que se ferisse
por mim





performer: Fabiano Barros

é agora réstia

























você, forasteiro próspero
sorri em minha tez
deixando supores
de minha epiderme

um tesão ocre
que reveste o hálito
e os lábios
de quem chora

O gosto da limalha
e da saudade
amarga a boca
antes beijada

atesta sem freio
esse poema obtuso
que reafirma a soma
de anseios e explora

sua audácia abriu sulcos
e liberou o glacial
da espinha ao córtex
fez-me nave vaga

declínio sob a mão
concreta e leve para tocar
uma resma, uma réstia
uma curva a me guiar

passo rumo ao parto
sutura e corte profano
pacto silencioso em gozo
da sua ilíaca e minha pele.






performer: Fabiano Barros

graxa

















a mesma graxa
nada mais
viscosa, evidente
amarela ouro
vale pouco
sem esperança
de ser qualquer outra coisa
apenas o ser graxa
o ingrediente perfeito
para lubrificar a máquina
beber, procriar e reproduzir
graxa da mesma graxa
e há algo que não seja?
o mais angustiante
é perceber-se
é compreender-se
é entender que graxa
jamais se torna parafuso
bucha, biela, diesel
nem ao menos engrenagem
é ver-se graxa eterna.






performer: Fabiano Barros

abstrato



















estou frágil e me engano
tantas são as cores
que pincelam a ilusão
que é fácil baixar a guarda
minha capital é caos
nalguma falésia sua

desse veneno que comunguei
mil vezes comigo
pouco me resta
e agora me alimenta

imperfeito é o futuro
nessa minha retórica-farsa
parca e insuficiente
mas é o que ainda me sustenta

não tema meu coração
ou minhas dores profundas
não maldiga meu passado
que me fez assim
sou completa no pretérito






performer: Fabiano Barros

balada da mulher cansada

























manhãs douradas
que não suportam
o peso dos ombros
de uma proletária
da fábrica e dos amantes

a escrava da balança
a herdeira da pobreza
sem força para ser bela

solitária
entre o caos concreto
e coágulos de vida

não alimenta o céu
nem amamenta
e acalanta o dia
dorme no metrô

mas não lembra dos sonhos.






performer: Maria Bello

caminho septado




















em vias desativadas
de sonhos quebrados
por engano cognitivo
paisagem amorfa
derretida nos castiçais
em chama azul densa
de devaneios idílicos
o caminhante confuso
por vezes se perde
sem saber voltar
sem querer seguir
quer apenas contemplar
oculta estrada
entre o negro
e o nada
que desce
sem intenção
semântica
e se afoga
em quadros de Dali.



performer: Fabiano Barros

chama da aparição


























ainda queimava
e a pele rubra
lambia-me

ventre e existência
em farrapos

a fumaça atravessava-me
feito besta-fera
galopava em olhos
vidrados que refletiam
a carga do fenecer e vagar

na leveza da dor flutuava
pálpebra, olho e caos.

flor irreversível


























o que me tomba são esses olhos
essa passagem turva
que a miopia
teima em ofuscar

nem chegue muito perto, moço
que cá em minha matuteza
só sei do seco e da aspereza
da lamúria de fundo de poço


quem dera assim
cansada da labuta
esperasse livre, que não a luta
e nem causasse tanto desgosto


sou eu mesma,
essa flor irreversível
esse ser indivisível que teima
em preservar-se ileso

quem dera fosse solta de nós
e desprendida de egoísmos
seria calmo meu lirismo
e essa gota de devoção

pare estrangeiro
não te dei o direito
de invadir meu peito
e devassar minha canção

mas que venha sóbrio
de dom e de coração
e que nesse verso
pratique a imensidão.

princípio

























átono príncipe
ímpio e antagônico
foi-se

selvagem
céu de janeiro
viagem







performer: Fabiano Barros