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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

mais do mesmo



























outrora manso
o olhar de água doce
que feito riso e rio
mata ânsia e sede
hoje só
encontro o sal
do mesmo olhar

penitência



















tão perdida a batalha do vivo
contra a dureza da vida
tão frágil planta
diante dos que acompanham
as águas fortes e correntes

que levam quase tudo
pedaços do corpo
levante da carne
o motim dos companheiros
e mal deixam a dignidade

um revolucionário
sobre a pedra dura
ignora a correnteza
o musgo verde brota
na esperança de sobrevier

talvez crescendo
talvez morrendo
e era só mais uma queda
diante de lutas perdidas
já não quer mais

dali de cima da pedra
ou do fundo do rio
aprecia a beleza
das floridas trepadeiras
ignorantes parasitas

ah, lançam suas flores
no vazio do vento
e desperdiçam energia
que não é delas
e sim das árvores velhas

pobre musgo feio
ramoso, de tão nojento
quase leproso
não traz força no belo
e sim a persistência do real.

flor de tempestade



























suas palavras rasgam
as certezas que trago aqui
retumbam nas vísceras
desagregam meu sentido mais ego

essa lira fragmenta danos
nego meu querer mesmo que
as premissas teimem
em redundar no âmago

suas sementes crescem
feito praga esgueiram-se
nas frestas desavisadas
enraízam-se causando dor

desses desejos mui tardios
que sussurram, calado ouço
mas impune à minha súplica
continua a brotar em mim

é como flor de tempestade
desabrocha gentil
impera bela
sem se ater ao que me causa.

vestígios

























cheio de limitações
o desfrute da demência insana
é amplidão interna
e o compartilhar sem reservas
não existe

dá um desconto
pelo amor de deus!
nem se a estocada é forte
não se sente completamente
a bainha sempre me sobra

ficou algo para fora
migalhas de pão da santa ceia
eu, cristo com crista vermelha
não despojaria de algo que se ferisse
por mim

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

ante besta-fera



















eu, pagã, filha de Hera
já não tenho passagem ou lira
atônita, sem ponto de fuga

nua e vencida
alvorada muda
fui reduzida
à alça de mira

cotovelo



















velos descontentes
ladainhas de despeito
quem dera o direito
de esfolar o desalmado

apedreja em deleite
é de sede que morre
quem muito quer
e não tem desforra

os laços desfeitos
são embustes perfeitos
para doentios quereres
que só ausentes se dão

a anca inerte destoa
da vertigem insone
das madrugadas
em amor e fúria

domingo, 16 de janeiro de 2011

destino




















segue agora
a força das marés
estarei aqui mesmo
se eu não estiver

entranhada de modo imutável
em suas circunstâncias
habito a origem das horas
que vão ao acaso

lá meu menino frágil
vai solto e sem medo
sem saber o que esperar

largou-me e se foi
a barra da saia
ainda chora por sua mão!

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011



a deusa morta


























dormiu e esqueceu
o que foi
partindo do princípio
do pó ao pó

não sonhou
oprimiu qualquer coisa
que trouxe esperança
e sufocou beira-mar.

das coisas belas e sujas




















essa face rasa respinga
no concreto
é o asco que abarca seres
rancorosos e magoados
iguais a você

surge com suas mãos
seus dedos sobre olhos
máscaras de esconder
com toque nocivo
que desdenha o que
mais quer

feche o punho que a vertigem
é mais soco que miragem
reflete o que há de belo
e aceitável

é imiscível com o que trago
sou suja, incurável
muco e substância
fétida

não vivo em seu mundo
e se sou uma qualquer
não sou para seus olhos

o que há de mais precioso aqui
é o que não pode alcançar
ou ao menos perceber.

capitanias




















que há de dizer
o bandeirante sagaz
que nada ofereceu?

o colonizador de sonhos
que tomou-me sóis
reprimiu o vento
e salgou-me os olhos?

devastação é o que há
sem face e querer
mal respiro ou choro
aqui jaz mais um mito meu
sem canto

só me sobraram as pedras
e tudo que havia além
foi levado sem pudor
como se dado fosse
roubou-me aos poucos
até me aniquilar.

grande vazio no centro




















um deserto vermelho
cartógrafos tentaram desenhar
geólogos lutam para explorar
e finam sob o solo salgado
e brilhante

um vazio horrendo
sacrifício e fracasso
pássaros decerto voam
para o norte
sobre a linha da morte

procuram água
e ricos vales
duas dunas paralelas
que o silêncio não varre
nesse meu deserto interno.

Marabô, Marabô




















para quem possa ter
está entre o oceano
e o horizonte poente

e vem
não se sabe de onde
vem sob o luar sorrindo
encanta a sombra
e a aparição

há tanto tempo que te amo
engana, Marabô!

ouve o canto do mito
seria entidade do mar?
ou será só a esperança
recriando o impossível?

não vê




















não vê
nada tenho de valor
nem esse grito tem apelo
e choro sem ter o que pedir?

agora sei o quem sou
observo esse pote vazio
sem vontades ou caprichos

naveguei por tantos mares
estou dura como pedra
de tão leve e oca
a onda me leva
e me traz
como faz
com todas as outras conchas.

desinvenção coletiva



















a figura era o contraste
meio musa
meio besta-fera
jogada pela força
das marés na areia
já não boiava beira-mar

a criatura está morta
em contraponto ao desencanto
seu grito ainda hipnotiza
a voz que lambe tímpanos
e devassa existências

a invenção coletiva
tal perpetuou Magritte
é a infecção
a ferida que sangra
é a insistência.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

caído em meu colo



















meu príncipe desbota o mundo
faz o tempo parar
sonha com a redenção de um tempo
onde só se pode amar
doa-se em gozo onírico
embriagado em desejo etílico
de cor verde intensa
com hora marcada e ressaca certa
mas as dores apenas adornam
o sorriso solto sob seu pescoço
engravatado
não abra os olhos
não perceba meu hálito são
dorme, que nos encontraremos
em redenção.


performers: Sindri Mendes e Mariana Carvalho

incisivo

























cortante movimento de prazer
sob ele curvam sólidos
refestelam líquidos
pervertem aborrecidas virgens
em solstícios sexistas

entre lábios e clitóris
confronta a sede dialética
coincide e confunde-se
em exultações e rigidez

conas e bocas são iguais
entre incisivos subvertem
vigoram como armadilhas
e caem em ciladas
misoginias e outros jogos

entregam-se à gula
não têm pudor
vingam-se em emboscadas
de desejos e gana.


performer: Nayra Carvalho

canino


























mordedura revelada
sem ater-se à presa
ou à agonia
do olho dilacerado

quatro lâminas a se tocar
nas pontas afiadas saboreia
a devoção ao sangue
refestelada na língua

entrega-se aos recortes
miúdos e quase mudos
à dor alheia
à liberdade entre os dentes

e ao nocauteado resta a lona
os caninos cravados
na nervura da carne
do confete rubro no chão.


performer: Nayra Carvalho

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

peixe morto






























já te pedi algumas vezes para que não me olhasse assim, esse seu jeito quase me dói, sabe bem de meus defeitos, não ouso enganar ninguém. hoje posso ficar mais um pouco só pra te agradar, vir deitar mais cedo, encher seus ouvidos de sonhos e seu corpo de amor. no vigésimo oitavo capítulo, deixou o sol dormir um pouco mais e sustentou os medos dele entre seus seios, sem promessas posteriores. era mais fácil amar de verdade no passado que no presente. lá no passado, como lembrança trancafiada em algum canto escuro, o amor é garantido por ser pretérito. ontem deparou-se com vários olhos como os dele boiando na lagoa Rodrigo de Freitas.




performer: Nayra Carvalho

Quando se é verde



























Não se percebe a malícia,
O amargo do mundo.

Quando criança,
Espiava da janela
Translúcida do quarto.

Tinha esperança
De ser feliz donzela,
Ser contente de fato.

Num momento qualquer,
Em que o sol se escondia,
Num quarto de mulher,

Vi uma figura estranha,
De olhos arregalados
E medo nas entranhas.

Fiquei receosa, pois seus olhos,
Eram apenas angústia,
Ânsia por algo perdido,
Jamais encontrado.

Naquele momento nada entendi,
Mas hoje sei
Que foi a mim que eu vi.


performer: Nayra Carvalho

a flor do ópio


























os pés-de-boi
ou patas-de-vaca
que importa?
têm flores desenhadas
belas e cheirosas

mas em encostas abissais
a flor do ópio
que induz ao pulo
ao infinito de sensações
ergue-se em resistência
quase frágil
sob os olhos do leste
sob a ânsia e a cólera
só existe pelo fato
doutro querer-lhe
a essência vertiginosa

que importa?

a flor do ópio
impera soberana
a visagem humana.


performer: Nayra Carvalho

desconfie de meus silêncios



















trazem pulsação alterada
um desistir ou esquecer
do que seria
noutra existência

sem cantar flores
sem ter porvir
ou alguma prece

encantada
feito silêncio mentiroso
sou infeliz.


performer: Nayra Carvalho

vê que já nem peço ternura


























que o remonte que temos basta
traz seu couro cru
a casta figura nata
vem que é semana de lua
e sei só de urgências
vem já desaprendi esperar

vê que já nem peço amor
palavra que o tempo oxidou
quero apenas clarear
traz seu falso alento
uma alvorada cândida
ao relento dessas noites
que mal me dou

me faz sangrar.


performer: Nayra Carvalho

Confidências


























Não consigo amar alguém sem
Ser possuído por uma dor imensa,
Depois que tudo acaba.
É uma dor profunda,
Quase tão grande
Quanto o universo.
Queria amar alguém
Que me respeitasse
E que não houvesse
Motivos para pedir
Ou agradecer.
Que o amor cedido fosse
Meigo e marcante...
Que a doçura dos nossos momentos
Superasse a dor do meu tormento
E que esse alguém ficasse tão feliz
Com minha presença suave,
Que seus olhos brilhassem até o infinito
Num brilho equivalente as estrelas.
Queria amar alguém que me possuísse
Com tamanho fulgor,
Que até os anjos, em confidências,
Sentissem inveja do nosso amor.
Queria amar alguém que fosse
Apenas inesquecível
E que esse amor não fosse tão somente forte
Mas sim, capaz de superar
As forças do céu e da terra.


performer: Nayra Carvalho

A tentativa de compreensão do mundo me escapa,



























Já tentei expressar esse absurdo cognitivo
Mas palavras parecem ambíguas, sem signo,
Por vezes levianas.
Como dizer grandes ou pequenas palavras
Se elas por si só se ferem
Por não serem livres, por não serem nada e tudo.
Alguns julgam usá-las com maestria,
Outros continuam conjugá-las em suas vertentes,
E transmutá-las em seu sentido até a exaustão,
Inutilmente.
As palavras dão margem à subjetividade,
Aos olhares múltiplos
Às verdades tênues.
Serei sempre um incompreendido,
Sábio e ignorante, por não saber, sabendo.
Julgo minhas tentativas,
Meus poemas,
Que nada mais são que coitos interrompidos
Na ânsia do gozo do entendimento.


performer: Nayra Carvalho

introspectiva




















balada cognitiva rumo
ao que é lume

talvez coubesse
a mentira do habitar
o coito alheio de derrota

sobra a fase mais ambígua
tentar entender a língua
do estrangeiro quase
desabitado.


performers: Mariana Carvalho e Nayra Carvalho

a lúcida em mim




























crucifica meu ser
administra mentiras
tenta ser correta
ser tão concreta

a lúcida em mim
afaga e engana
precede e o consente
meia volta
pra recomeçar

a lúcida em mim
sufoca o precipício
a lúcida em mim
parece não existir.


performer: Mariana Carvalho

o mundo deveria parar



















apenas para ouvir um suspiro
preciso do silêncio de madrugadas
em meu pequeno mundo
nas grandes ausências
o silêncio visceral
duma veia entupida
dum gozo catatônico
quero o suspiro puro
dormente
completo
com crises e dores
livre
talvez o mundo parasse
se eu ouvisse seu suspiro.



performers: Mariana Carvalho e Nayra Carvalho

sonha, que teu desejo é vão,


























ama, que teu sonho é vão,
viva, que teu amor é vão,
grita, que tua vida é vã,
cala, que teu grito é vão,
morra, que teu silêncio
é o que te cabe
neste mundo sem perdão,
perdoa, que tua morte é vã,
e vá, que tua ida
é apenas despedida
do que tanto te aborrece.


performer: Mariana Carvalho