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domingo, 7 de novembro de 2010

tatuagem incolor


















se me quer
deseja-me em segredo
não há inveja
em cantos escuros
nem em frestas
silenciosas e iluminadas

traz o amor estampado
em sua testa
sob o dedo médio
onde só eu possa ver

se me quer
que seja logo
para que esse
bem querer
não nos perca.




performer: Fabrício Barros

sábado, 6 de novembro de 2010

o enforcado



























o homem sozinho
abarca todos males
e condenado ao mundo
se dobra ao impacto

como se fosse
apenas seu peso
e a pressão do nó

como se já não
importasse a corda
ou o medo

o músculo desgastado
clama o resgate
e as forcas
só ditam cabeças.




performer: Fabiano Barros

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

borderline,



























borderline, borderline
prognóstico ou diagnóstico
insulta-me seu silêncio

e tento me convencer que uma hora passa
mas esse tempo esgarça e me importuna
que há de me dizer a posteridade

que as horas foram infiéis comigo
e que me levaram tudo o que quis?
clausuras temporais são minha punição



performer: Fabrício Barros

vestígios




















cheio de limitações
o desfrute da demência insana
é amplidão interna
e o compartilhar sem reservas
não existe

dá um desconto
pelo amor de deus!
nem se a estocada é forte
não se sente completamente
a bainha sempre me sobra

ficou algo para fora
migalhas de pão da santa ceia
eu, cristo com crista vermelha
não despojaria de algo que se ferisse
por mim





performer: Fabiano Barros

é agora réstia

























você, forasteiro próspero
sorri em minha tez
deixando supores
de minha epiderme

um tesão ocre
que reveste o hálito
e os lábios
de quem chora

O gosto da limalha
e da saudade
amarga a boca
antes beijada

atesta sem freio
esse poema obtuso
que reafirma a soma
de anseios e explora

sua audácia abriu sulcos
e liberou o glacial
da espinha ao córtex
fez-me nave vaga

declínio sob a mão
concreta e leve para tocar
uma resma, uma réstia
uma curva a me guiar

passo rumo ao parto
sutura e corte profano
pacto silencioso em gozo
da sua ilíaca e minha pele.






performer: Fabiano Barros

graxa

















a mesma graxa
nada mais
viscosa, evidente
amarela ouro
vale pouco
sem esperança
de ser qualquer outra coisa
apenas o ser graxa
o ingrediente perfeito
para lubrificar a máquina
beber, procriar e reproduzir
graxa da mesma graxa
e há algo que não seja?
o mais angustiante
é perceber-se
é compreender-se
é entender que graxa
jamais se torna parafuso
bucha, biela, diesel
nem ao menos engrenagem
é ver-se graxa eterna.






performer: Fabiano Barros

abstrato



















estou frágil e me engano
tantas são as cores
que pincelam a ilusão
que é fácil baixar a guarda
minha capital é caos
nalguma falésia sua

desse veneno que comunguei
mil vezes comigo
pouco me resta
e agora me alimenta

imperfeito é o futuro
nessa minha retórica-farsa
parca e insuficiente
mas é o que ainda me sustenta

não tema meu coração
ou minhas dores profundas
não maldiga meu passado
que me fez assim
sou completa no pretérito






performer: Fabiano Barros

balada da mulher cansada

























manhãs douradas
que não suportam
o peso dos ombros
de uma proletária
da fábrica e dos amantes

a escrava da balança
a herdeira da pobreza
sem força para ser bela

solitária
entre o caos concreto
e coágulos de vida

não alimenta o céu
nem amamenta
e acalanta o dia
dorme no metrô

mas não lembra dos sonhos.






performer: Maria Bello

caminho septado




















em vias desativadas
de sonhos quebrados
por engano cognitivo
paisagem amorfa
derretida nos castiçais
em chama azul densa
de devaneios idílicos
o caminhante confuso
por vezes se perde
sem saber voltar
sem querer seguir
quer apenas contemplar
oculta estrada
entre o negro
e o nada
que desce
sem intenção
semântica
e se afoga
em quadros de Dali.



performer: Fabiano Barros

chama da aparição


























ainda queimava
e a pele rubra
lambia-me

ventre e existência
em farrapos

a fumaça atravessava-me
feito besta-fera
galopava em olhos
vidrados que refletiam
a carga do fenecer e vagar

na leveza da dor flutuava
pálpebra, olho e caos.

flor irreversível


























o que me tomba são esses olhos
essa passagem turva
que a miopia
teima em ofuscar

nem chegue muito perto, moço
que cá em minha matuteza
só sei do seco e da aspereza
da lamúria de fundo de poço


quem dera assim
cansada da labuta
esperasse livre, que não a luta
e nem causasse tanto desgosto


sou eu mesma,
essa flor irreversível
esse ser indivisível que teima
em preservar-se ileso

quem dera fosse solta de nós
e desprendida de egoísmos
seria calmo meu lirismo
e essa gota de devoção

pare estrangeiro
não te dei o direito
de invadir meu peito
e devassar minha canção

mas que venha sóbrio
de dom e de coração
e que nesse verso
pratique a imensidão.

princípio

























átono príncipe
ímpio e antagônico
foi-se

selvagem
céu de janeiro
viagem







performer: Fabiano Barros

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

sou bem o desenho





















preto e branco
caricato de um semblante
infame e descontente
de olhos virados
esbugalhados nos cantos
da face pária

nariz rasgando o céu
qual empino de revolta
e rajado de defeitos
cravados em dorso desavisado
serpente de aço
no subterrâneo metropolitano

indefino-me

talvez mero papel de abano
daqueles que se abrem
em conjugação perfeita
entregue à beleza
do movimento da mão alheia
assim no disfarce de minha vexa
por não ser mais que objeto


sou bem o desenho
opaco e acinzentado
rabisco de naif
sem olhos
sem face
preso na tentativa
de serventia
e não ter.

sonha,



















que teu desejo é vão,
sonha, que teu desejo é vão,
ama, que teu sonho é vão,
viva, que teu amor é vão,
grita, que tua vida é vã,
cala, que teu grito é vão,
morra, que teu silêncio
é o que te cabe
neste mundo sem perdão,
perdoa, que tua morte é vã,
e vá, que tua ida
é apenas despedida
do que tanto te aborrece.





performer: Fabiano Barros

segunda elegia


















o homem perturbado
dialoga com a vida
e há quem diga
que é um baseado
ou que é heroína
mas ele encena
a luta diária
de se dar por nada, na perda
no movimento do outros.

o homem entende
com seus olhos invertidos
vê o que ninguém mais consegue
enxuga seus lábios tardios
enfastiados de agonia
para tentar ser feliz
vomita Euclides da Cunha
e drogas ilícitas
para se livrar das grades.

o homem interna-se
só há grades nos outros
no mundo e em si
no retrair do músculo
na tensa paz vazia
nas ocupações diárias
tenta ser livre
e solta seu verbo
na Jaceguaí.

o homem olha-se
e não vê-se completo
vê-se coagido e liberto
e dança parado
com a fumaça do fumo
e se vai com ela
como se fosse o único
a ver, a sentir, amar e perder
tudo que desejou na vida.




performer: Fabiano Barros

máquina de guerra



























um entrave na junção da engrenagem
com a cera da vela oradora é suplicante

por não suportar mais a garatuja de olhos
presos ao fundo a prego e a parafuso

a clave em Dó maior replica a parole
de um canto que não vai vivenciar

agarrou-se de tal modo ao cavalo de aço
que dele não se solta e torna-se escravo

a solda certifica o encaixe perfeito
parafina chora e ferrugem perpetua

como processar uma ideologia esgarçada
se não permitem mais o livre cavalgar?

Meu olho esquerdo



















Não repare
Não me olhe muito
Pois percebi agora
Que meu olho esquerdo
É enorme
Mais permissivo
Mais revelador
Menos punitivo
Menos constrangedor
Quem me dera tivesse
Dois olhos esquerdos
Para ver apenas um lado
Para perceber melhor os outros
Pois meu olho direito
Só inflama
Só me reprime
Só me engana.











performer: Fabiano Barros

meu homem



















é todo pés
onde deixo
meus beijos

é todo dobras
onde sou água
fluida e generosa

é todo sorriso
e faz abrir minha ala
meu carnaval

é todo braços
onde me curo
do mundo.



performer: Fabiano Barros

anjo,



























povoa meu átrio aflito
molha meus lençóis
vem iluminar meu
seio e sexo

não poupe minha falta
de fé e me curre
que de seus beijos castos
me cansei

seja objeto de desejo
entre meus regalos
sem pedir e roube-me
já não me pertenço mais.










performer: Fabiano Barros

rubro


















queima a palavra presa na garganta
que o plexo venoso não espera represas
arrebenta o que envergonha
descarta o obsoleto
como quem verte câimbras falhas
o reflexo rugoso do desistir
é coágulo e seca na veia de peito alheio
deixando-o à míngua.




performer: Fabiano Barros

água




em sua boca
sou fluida
quase falida

em ventre
o gozo
quase parida

em lábios
essência
saliva




performer: Fabiano Barros

paramare




















batizei telas, cores, vielas
com seu nome
vinhos, sambas, beijos
com seu sobrenome

jamais quis tanto alguém
esta é a canção
única que compus
paramare pelo mundo afora

e as nuvens, pobrezinhas
seguem sufocando
por serem inconstantes
breves bocejos

eu culpo esta cidade
as pedras surdas
e seu excesso de
palma e prego

enfim estou de volta
inteira como fui
como não deixaria
de ser, não nego
dias e noites paramare.




performer: Fabiano Barros






performer: Fabiano Barros







performer: Fabiano Barros







performer: Fabiano Barros




performer: Fabiano Barros

doloso





















sei dessa angústia
tardia que habita
meus espelhos
matinais

e dessas paisagens
disformes retratadas
em papel de embrulho
descartadas à revelia

por ceder ao alheio
esmoreço em dolos
quantas faces
de Frida encontrarei
em vias expressas
e passeios públicos?

amante


























quando me ama
sinto feito figura
anônima
em um quadro
de René Magritte



performer: Fabiano Barros




performer: Fabiano Barros

ensinou-me os paraísos




ensinou-me os paraísos
em todos os sentidos
aguçou minhas sensibilidades
debulhou imprecisas possibilidades
foi-se sem aviso
dilacerar novos seres...

e no negro da noite
esperei por ti
reinventei-te
em tragos descomunais
porções de haxixe
campos de papoulas...

e no negro da noite
entreguei-me a outros braços
a outros vícios
quis-me paraíso narciso
com cipós brotando nas narinas
seus olhos habitando minha vagina...

e no negro de meu ser
seu sexo ereto em minha boca
o martírio de vitórias-regias
em meus olhos
acordo sozinha
vazia de nós.


performer: Fabiano Barros

afogado




















aquele que sucumbiu
menos pedra, mais areia
deixou-se levar pelo mar

a humanidade é um arquipélago
os homens são ilhas
cercados de água e sal
por todos os lados.






performer: Fabiano Barros

redentor



















que esses braços
surpreendam
e calem nossos
reinos

como quem já
não liga
para a adoração
oro seca

na lama de
seu não
e se é sim
me queimo

plena em
danação.




performer: Fabiano Barros

terça-feira, 2 de novembro de 2010

zigoto


















antes disforme
e desatento
viajava lento meio
aos velos antigos
aguado e destemido
esse ser alado
hoje voa tal mérito
de esquecido
sem consciência
esse que confronto
não é anjo
ou demônio
nem tão pouco
é o homem
a quem me dei
no passado





performer: Fabiano Barros

atemporal


















os segundos suspensos
soam horas infindas
e passou pelas portas
estreitas que sustentam
meu átrio

como sair ilesa
de seus olhos
como guardar a ânsia
dos cinco minutos
se eles folgam horas?



performer: Fabiano Barros



performer: Fabiano Barros

anelo



















como se fosse
algo inteiro
quase abocanha
o vazio
isso me assusta
não pretendo blefar
e ser injusta
mas sua boca amarga
traz a essência
do baldio
não me é dezembro
soa-me mais
como fevereiro